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Homenagem a meu grande amigo Nilo Alves: furando pedra com prego de papelão

Homenagem a meu grande amigo Nilo Alves: furando pedra com prego de papelão

15/03/2021 às 16h54 Atualizada em 15/03/2021 às 16h54
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Homenagem a meu grande amigo Nilo Alves: furando pedra com prego de papelão

Edvaldo Rodrigues:jornalista e escritor

Nilo Alves

No final da segunda metadeda década de 1980, muitos filhos do esquecido Norte de Goiás comia o “pão que odiabo amassou”, exilados em terras distantes, buscando conhecimentos nas salasde aula das renomadas escolas superiores nos estados do Pará, Maranhão, Rio deJaneiro, São Paulo, Distrito Federal e, na sua grande maioria, na capitalgoiana. Eu, ainda muito jovem, carregando no peito a dor da negação educacionalimpostas às terras de Teotônio Segurado, compunha um especial grupo deestudantes portuenses matriculados na UFT – Universidade Federal de Goiás. Foi ali, na Concha Acústica daquelainstituição que tive meu primeiro contato com o cantor Nilo Alves, que já faziasucesso com suas canções no meio universitário.

Foi amizade à primeiravista. De lá para cá, com o Tocantins passando de sonho libertário a umarealidade em construção, no caminhar soberano das nossas conquistas,fortalecemos os laços indissolúveis do companheirismo. Neste trilhar debuscas,  vivenciado a luta e a labutacotidiana, emolduramos em nossas almas uma parceria do gostar um do outro, dorespeitar os trabalhos literários que nossas mentes inventivas pescam nosmomentos de desilusão, de desesperança e, às vezes, impondo tortura nodesabrochar das paixões, que descontroladamente inundam nossos olhos com aslágrimas dos desamores dilacerantes, que como pesadelos pairam no ar em formade nuvens de chumbo, a perturbar nosso viver sem amarras, que diuturnamente tentamosmoldar o universo soberano das artes.

Nilo Alves, banhado ebenzido pelos ramos da competência, se fez verdadeiramente um mosaicoartístico. Cantava, compunha, produzia, e tenha conversa franca e aberta comseu violão de fala mansa, além de costurar com os fios retirados do noveloliterário, contos e crônicas embebidos de uma suavidade poética singular. Eramerecidamente integrante de um seleto grupo de artistas com cheiro de terra epeixe, paridos nas barrancas dos rios Araguaia e Tocantins, dentre eles sedestacam expressividades como Genésio Tocantins, Braguinha Barroso, Maria Rita,Juraildes da Cruz, Juarez Filho, Dorivam, Éverton dos Andes, Diomar Naves,menestréis que nas últimas três décadas vêm esculpindo o aço com “inxó” demadeira, para convencer que são ótimos no que fazem, e por isso merecedores dereconhecimento.

Sabedor que sou desta durarealidade em que labutam nossos artistas, e buscando pincelar de humor nessaaprazível relação de amizade, resolvi então “aprontar” com meu irmão e parceirode jornada cultural Nilo Alves. Certa feita, quando ainda ocupava o cargo deSecretário de Comunicação de Porto Nacional, intermediei junto a Secretaria deCultura do município portuense um show para o lançamento de um CD deste genialcantor, músico, escritor e compositor. O espaço para o evento foi a Praça doAvião, no Setor Vila Nova, onde naquele momento acontecia uma FeiraGastronômica. Ali, ao som da algazarra noturna das várias gerações deportuenses em confraternização, armei “minha arapuca” para apanhar um homem eseu violão.

Como já era esperado, o showde Nilo Alves foi muito prestigiado. Ele foi aplaudido entusiasmadamente pelopúblico presente, que também comprou todos os CDs ali a disposição. Após oevento, escolhemos uma mesa afastada da grande massa e assim passamos adesenhar alguns projetos futuros. Ele, com a sua eloquência visionária impunhaa mim um silêncio observador. Foi por isso que meus olhos encontraram “MocoDizidério”, um jovem abobalhado amado por todos os portuenses. Alguns médicosde cátedra refinada o diagnosticaram como Autismo. Outros doutores de gente,atuantes nas periferias da cidade, afirmaram que era retardo mental. O certo éque somente a parteira e rezadeira “Salustiana Bunda Baixa”, identificou acausa da “moléstia” daquele rapaz: “era coisa de sangue”. Segundo ela, o jovemera a cópia fiel do pai, “Jurandir Cara de Cu”.

“Jurandir Cara de Cu” nãofalava, não ouvia e nem enxergava, mas era fazedor de menino. Botou dez filhosno mundo, paridos por dez mulheres pertencentes a “tribos diferentes”. Seuapelido era uma referência ao olho direito, quase encostado no esquerdo,afundando a parte superior do nariz. Nada disso o fazia um homem triste, quemesmo com todas estas deficiências vivia perambulando pelos aposentos íntimosde algumas “quengas” de destaque da vagabundagem local, isso graças, segundo oscomentaristas de alcova da cidade, a sua virilidade e o enquadramento métricode seu instrumento sexual.

Nilo Alves, sentado numaaconchegante cadeira de madeira e, acariciando seu violão que dormia no colo,era puro êxtase por ter apresentado seu trabalho em Porto Nacional e recebertanto apoio, mas não parava de reclamar. “Estou cansado. Carrego água em jacáde ladeira arriba, todos os dias corto lenha com machado de borracha. É assimque me sinto por não ter o reconhecimento merecido depois de tantos anos naestrada. Às vezes penso em parar, mas vem uma apresentação como esta, aírenascem as esperanças!!!” Quando me permitiu falar, injetei nele uma dosecavalar de autoestima: “Rapaz, você é muito bom!!! Toda a coletividadetocantinense admira seu trabalho, que já é parte da consciência cultural emtodos os quadrantes do Estado.” Um largo sorriso emoldurou seu rosto.   

Meu plano era testar asegurança artística de Nilo Alves e “Moco Dizidério” era o gatilho principaldaquela “prezepada”.  E ali estava ele,sentado num banco, “rosnando com seus botões”. Sabendo que aquele jovemespecial decorava imediatamente tudo que ouvia, resolvi montar uma “pegadinha”para meu amigo cantor, e com a desculpa de ir ao banheiro me desloquei em suadireção e disfarçadamente a ele apresentei meu plano, isso depois de depositarno bolso de sua camisa uma nota de vinte reais, ao mesmo tempo em que oincentivei a comer pipoca e beber refrigerante, seu passatempo predileto. Apósalguns sussurrantes ensaios, constatei que o “texto” estava na ponta da língua,e aí então combinei o sinal que daria para ele abordar a nossa “vitima”.

Após aquela preparação“teatral”, retornei ao convívio verborrágico de Nilo Alves e dali sinalizei a“Moco Dizidério” que era chegada a hora da sua atuação. Ele aproximou da nossamesa, parou diante do renomado cantor tocantinense e emendou: “Quero umautógrafo do senhor!!!”. Com a alegria estampado no rosto o artista semovimentou para atender mais um “fã”. Antes dele apontar a caneta para desenharseu nome num pedaço de papel, o filho de “Jurandir Cara de Cu” perguntou: “Osenhor é aquele artista, aquele que pinta quadros, né? O senhor pinta os quadrode Jesus Cristo, né?” Senti a mesa tremer, e com muita dificuldade segurei oriso.

Nilo Alves olhou raivosopara “Moco Diziderio”, e disse bem alto: “Quadro de Jesus Cristo é uma porra,eu sou é cantor!!! Seu babaca, você não viu o meu show? Eu sou é cantor e nãopintor!!!”. O rapaz se retirou em silencio e novamente ocupou seu banco, naalça de mira do meu olhar. E nosso artista desabafou: “Não aguento mais isso.Você compõe, musicaliza, produz, escreve, trabalha com seriedade, noites enoites sem dormir, dias e dias passando necessidade, pois esta é a realidade dequem faz arte no Tocantins, e ainda não somos reconhecidos por isso. Vou emborado Tocantins, pois isso não é justo”. Meu riso preso ameaçava desatar asamarras.

Em meio ao silencio quereinou em volta da nossa mesa, “Moco Diziderio” se aproximou novamente e lascououtra pergunta: “O senhor só pinta quadros de Jesus Cristo, ou pinta do capetaTambém?” Nilo Alves ameaçou levantar-se, e alterado retrucou: “Seu porra, seucaralho, eu não pinto quadro de ninguém, nem de Deus nem do diabo. Eu sou écantor, compositor. Que desgraça de quadro de Jesus é essa? Que caralho aquatro é esse?. Você já esta passando dos limites, eu sou é cantor seuimbecil!!” Neste momento me posicionei entre os dois, pois o clima ferveu. E meuamigo então retrucou: “Chega!!! Vou mudar de vida, vou ser camelô, vou montarum cabaré, e ser mais respeitado.”

Alguns minutos depois “MocoDiziderio” voltou, aproximou da nossa mesa e lascou: “Agora que me lembreidireito do senhor. Na semana passada o senhor vendeu um quadro de Jesus Cristoque pintou para minha vó, ela lhe pagou e você sumiu como troco!!!” Ciente doperigo que o jovem corria, o peguei pelo braço e o conduzi até o local ondesempre preferia sentar. Após depositar mais dez reais no bolço de sua camisaretornei para a convivência raivosa do meu irmão e amigo Nilo Alves, e elevociferava: “Vou deixar de cantar, vou embora do Tocantins, pois Isso aqui érevoltante, ninguém valoriza o seu trabalho. Acho que não vale a pena insistir,não compensa continuar enxugando gelo”. Nada disso aconteceu. Ele continuoucantando, compondo, escrevendo maravilhosamente e fortalecendo sua persistênciaem furar pedra com prego de papelão. Foi acima de tudo um resistente, umvencedor. Um artista à frente do seu tempo.

 

 

 

 

 

 

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