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Povos indígenas da Ilha do Bananal buscam apoio do Estado para implantação do Etnoturismo

Povos indígenas da Ilha do Bananal buscam apoio do Estado para implantação do Etnoturismo

21/07/2021 às 09h40 Atualizada em 21/07/2021 às 09h40
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Povos indígenas da Ilha do Bananal buscam apoio do Estado para implantação do Etnoturismo

Seleucia Fontes

Equipe da Adetuc realizou diagnóstico em aldeiasdas etnias Javaé e Krahô-Kanela, na Região Turística da Ilha do Bananal.

Wagner Katamy mostra natureza intocada na Terra Krahô Kanela -Seleucia Fontes - Governo do Tocantins

Festastradicionais e artesanato são importantes atrativos para o desenvolvimento doturismo nas comunidades indígenas tocantinenses, sendo a pesca esportiva maisum fator agregador e altamente rendável, principalmente na Ilha do Bananal.

O incentivo aoEtnoturismo, que tem potencial reconhecido no Tocantins e é uma demanda devárias comunidades, está na pauta de ações da Agência do Desenvolvimento doTurismo, Cultura e Economia Criativa (Adetuc), que recentemente inicioudiagnóstico nas aldeias Javaé e Krahô Kanela.

Durante o trabalhode inventariação turística do município de Lagoa da Confusão, a equipe daSuperintendência de Turismo esteve em três aldeias e um acampamento de pesca,para levantar as demandas das lideranças indígenas e conhecer aspotencialidades de cada agrupamento, tanto para o desenvolvimento da pescaesportiva quanto para a atração de visitantes para atividades culturais.

“A vida dos povosoriginários do Brasil é cercada de curiosidade e desconhecimento, há um grandepúblico interessado, inclusive internacional, o que pode resultar em geração derenda e melhores condições de vida nas aldeias”, pontua Jairo Mariano, presidenteda Adetuc, ressaltando que o governador Mauro Carlesse está atento aofortalecimento do turismo como força econômica, inclusive nas comunidadesindígenas.

De acordo com asgerentes de Produtos Turísticos, Kleiryanne Aguiar, e Projetos Estratégicos, MaynaBezerra, que também é responsável técnica pela Região Turística da Ilha doBananal, as aldeias visitadas possuem grande potencial a ser desenvolvido,sendo necessária a elaboração de projetos e parceria de outras pastas doGoverno e entidades públicas e privadas.

Pesca esportiva

O povo Iny (pronuncia-se “Inã”) reúne a maiorpopulação indígena do Tocantins, e inclui os Javaé e Karajá, que vivem emgrande parte na Ilha do Bananal, além dos Xambioá, sediados na região de SantaFé do Tocantins. O pescado faz parte de sua alimentação tradicional, sendo apesca profissional um meio de sobrevivência para várias comunidades. Mas oavanço da pesca esportiva na região tem aberto novas perspectivas, não apenaseconômicas, como também ambientais, com a abundância de rios e lagos na região.

Walter Javaé: “Estamos aprendendo a entender o pesca e solta paratrabalhar com turismo” - Seleucia Fontes - Governo do Tocantins

Uma das liderançaslocais, o ex-cacique Walter Javaé, 56, conta que seu pai foi fundador da BotoVelho, maior aldeia da etnia, e seu filho é o atual cacique da aldeia Tixodè.Seu acampamento encontra-se em uma área privilegiada, onde o rio Verdinho, quetem uma extensão de 37 km, encontra-se com o Javaé. Ele, que já atuou naFundação Nacional do Índio (Funai), explica que ainda é preciso identificartodos os lagos, visando a alternância dos pontos de pesca, para garantir areprodução das espécies locais.

“Estamosaprendendo a entender o pesca e solta para trabalhar com turismo”, contaWalter, relevando que dentro da Ilha do Bananal, na chamada Mata do Mamão –fechada para qualquer forma de exploração, devido à possível presença deindígenas não contatados – há “piroscas com mais de 200 kg e enormes Anacondas”(sucuris gigantes).

Miguel Waotia apresenta o rio Barreiro, um dos pontos depesca da Terra Javaé - Seleucia Fontes - Governo do Tocantins

Casado com umaJavaé, Miguel Waotia Karajá, 64, é cacique da aldeia Watnã, e mostrou comorgulho, à equipe da Adetuc, o rio Barreiro, que possui 1500 metros, sendo quea área de sua aldeia possui mais oito lagos, três já mapeados e cadastrados noMinistério da Pesca. “Tem lago sem pesca há 2 anos que está com muitopirarucu”, conta ele, que em setembro passará o comando da aldeia, formada pornove famílias, para dois de seus filhos. “Sempre procurei desenvolvimento parao meu povo”, diz.

“Antes da criaçãodo parque indígena, essa terra já era nossa, hoje precisamos dedesenvolvimento, geração de emprego e renda, por isso estamos buscando essaparceria com município e Estado”, revelou, ao defender a proteção da culturaIny, com a construção de um centro de visitas e museu, no formato de uma casatradicional, para receber os visitantes.

Miguel, quedefende a prática da pesca esportiva com fiscalização indígena, também mostrououtras riquezas de suas terras: um grande pé de jatobá e uma pedra negra que,segundo estudos de duas mineradoras, é manganês e possui cerca de 5 mil metroscúbicos, estando sua totalidade abaixo da terra. 

Apesar do paiindígena, Paulo César Javaé, 48, nunca negou suas raízes, aprendendo com a mãeas tradições do povo Iny. “Falo minha língua muito bem, minhas raízes estãoaqui”, conta ele que é cacique da aldeia Horotory Awá, com 15 famílias, formadahá apenas 3 anos. Ele revela que a pesca profissional já foi a principal fontede renda de seu povo, que depois passou a ser a criação de gado.

“Antigamente, agente não precisava de vaca ou cesta básica para fazer a festa do Hetoroky; opai plantava mandioca pra comer com peixe, batata doce, banana, colhia melsilvestre. Tendo alimento suficiente chamava para a festa dos diré”, conta,sobre a festa tradicional que marca a passagem dos meninos para a vida adulta.

Paulo César: “Ninguém vai entrar sem autorização, e ninguém vai sair compeixe” - Seleucia Fontes - Governo do Tocantins

Segundo PauloCésar, a área Javaé possui mais de 30 lagos, mas alguns secam no período semchuvas e outros são verdadeiros pântanos no período chuvoso. Para ele, éfundamental revezar a exploração dos lagos para pesca esportiva, e controlar aentrada desordenada de não indígenas pela principal balsa que dá acesso à Ilha.

“Ninguém vaientrar sem autorização, e ninguém vai sair com peixe”, defende, sempre com apreocupação de gerar estabilidade econômica para seu povo. “A questão da pescadepende de controle, fiscalização”, completa.

Oportunidade parao povo Krahô Kanela

Com uma trajetóriade grandes perdas e quase dizimação, o povo Krahô Kanela conquistou aregularização das suas terras e o reconhecimento como etnia há menos de duasdécadas e vem, aos poucos, retomando suas tradições e língua, a partir deprojeto de revitalização que conta com apoio de instituições de ensinosuperior e do povo Krahô.

Para eles,Etnoturismo não é visto apenas como uma possibilidade de geração de renda, mastambém um estímulo à retomada das festas tradicionais, danças e cantos, ao usode pinturas e produção do artesanato.

A Terra Indígenaconta com 130 moradores, está localizada a 57 km de Lagoa da Confusão e possui12 lagos entre os dois mais importantes rios da região, o Formoso e o Javaé.Para Wagner Katamy Ribeiro da Silva Krahô Kanela, presidente da Associação doPovo Indígena Krahô Kanela (Apoinkk), é viável trabalhar o turismo associado apreservação ambiental.

Sua proposta, queconta com apoio de lideranças da aldeia, é trabalhar com pesca esportiva noLago do Cacoal, a cerca de 2 km do rio Javaé, aliando outras atividades, como aobservação de animais silvestres e apresentações culturais.

“É comum na regiãoo aluguel de pastagens, a criação de gado e a pesca profissional, o turismo éuma nova oportunidade”, aponta Wagner, ressaltando que a ideia é preparar uma estruturapara a pesca esportiva e treinar os jovens da aldeia para atuarem comovigilantes e condutores.

 

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